Ele estava lá. Era apenas mais um rosto despercebido entre os olhares apressados. A coluna imóvel, maltrapilha, sentada no chão sujo, entre papelões e cobertores velhos, não despertava nem a piedade e muito menos o interesse dos pedestres. Essa era a figura que ficava todos os dias na esquina daquela rua no centro. Ninguém sabia a sua história, seu passado...
O senhor tinha cabelos grisalhos, era barbudo, de olhos azuis e aparentava uma pele clara – pele clara porque a tonalidade amarronzada era resultado da sujeira conservada ao longo dos dias na rua. O homem era calado, só falava o necessário. Além do mais, não demonstrava preocupação alguma com o estado em que se encontrava. Não aceitava ir para abrigos e vez ou outra tinha surtos que o tornava uma pessoa agressiva. Andava para lá e para cá o dia inteiro, mas sempre voltava para a sua esquina.
A atividade do morador de rua era recolher a sucata e recicláveis, que ele pegava no lixo, e levá-los a uma cooperativa, que por sinal, ficava muito distante de sua moradia improvisada e isso lhe fazia percorrer um longo caminho. Ainda mais, no local não lhe pagavam muito bem.
“O preço do material reciclável está em baixa. É a crise!”, explicava o responsável pela cooperativa.
Mas o senhor não estava nem aí, só queria o dinheiro para manter seu vício: o cigarro. Com a comida se dava um jeito! A bebida alcoólica nem o entusiasmava - como é de praxe o fascínio entre os moradores de rua - mas o cigarro, esse era sagrado!
E assim os dias iam se passando. E o velho morador de rua continuava a ser uma pessoa anônima no mundo. Mas o que ninguém sabia e nunca se perguntaram é o motivo que o levou àquela situação.
Ele poderia ter sido um rapaz distinto, filho e herdeiro da alta sociedade. Caçula de dois irmãos, frequentador de festas e das colunas sociais. O que lhe aconteceu? Uma doença mental. Os tratamentos não adiantaram e num momento de lucidez resolveu sair mundo afora.
Ou então, um pai de família, que por algum desgosto - morte de um filho - cai em depressão e se isola de todos que conhece. Quem sabe até personagem de um romance com final trágico?
É curioso imaginar, diante da aparência desleixada as inúmeras possibilidades de narrativas que podem se formar das histórias de quem vive nas ruas. Elas podem ser as mais simples ou as mais ricas em detalhes, basta se aproximar!